"CARVÃO"

Eu tenho divagado é verdade, mas eu tenho estado curioso, com o teu estado actual e a tua forma de estar, as minhas falhas foram insensatas de várias formas e egoístas noutras tantas. A verdade é que um ser humano, precisa de aprender, por si próprio na maioria, e desesperar até perceber. O sonho assume várias formas, mas nenhuma delas assumiu a tua doce figura, qual sonho, qual quê, que se transpõe para a vida real e deixa um espelho de mim à tua mercê. Talvez agora que a solidão me abraça, e que o teu frio me deixa doente, à beira de um precipício virado para os nervos, e tal acontecimento como sempre, como o vento que me trava, é como um céu cinzento. Qual sina que te leva a ver tudo com outro espécime, que no início são quadros de ti pintados a cores com um pincel que carrega na mão, e que o preferiste pendurar... ao invés de um retrato simples, que com apenas o fardo da desordem e do silêncio, foi rasurado a carvão.
Eu tenho divagado, maioritariamente à noite, quando os ouvidos das paredes dormem, e assim, posso finalmente falar de ti, mas só para eu próprio ouvir, não vá ouvir outro homem. Meti nos teus braços todo o peso no qual um futuro se deve sustentar, mas quem acabou por cometer o crasso erro, como sempre fui eu, o pior é que eu previ as minhas falhas, e não me consegui impedir de falhar.
Mas como?!
Ultimamente, é esta pergunta que mais faço durante o dia aos ouvidos das paredes, que por alguma razão, já pouco ou nada me ouvem, e que por vergonha de mim, nem uma resposta dão. Como pude eu permitir, que tudo o que tive na vida foram as rosas, plantadas em mim com afecto e que com esses espinhos, sofri, mas rosas essas plantadas por ti.
Agora, eu, como ser humano, calculei a expansão do meu erro, e como qualquer ser humano, correr atrás do erro e corrigi-lo, é quase como um chamamento. Afinal quão ténue é a linha do amor para eu não ficar com quem amo. Lembra-te que os quadros a cores podem ser os mais bonitos, mas lembra-te também que existe um número incalculável de cores, e outro espécime teve a pintura mais bonita de ti na mão... mas sobretudo lembra-te que ele tinha todas as cores, todos os tons e inúmeras variantes, e eu...
só tinha silêncio, saudade e carvão.
É curioso que a língua portuguesa seja a única com a palavra saudade no dicionário, é triste senti-la e não poder fazer algo, a não ser viajar em fotos antigas, onde tudo parecia estar certo entre nós. E sobre nós, talvez a guitarra portuguesa num fado moribundo e triste, me transporte por momentos para esses tempos, e pode ser que eu aprenda, que se procurar o conforto no nosso passado, ele existe. Eu não sei se estava preparado para voltar a sentir isto tudo no mesmo espaço de tempo, eu não sei se alguma vez estarei, mas na verdade, o facto de eu estar disposto a lutar contra todas as "hipotéticas chances", não quer dizer que na verdade lutei.
Já te disse metade do que sonhei? E tudo o que deixei planeado? Não disse, e por sinal, talvez nunca tenha oportunidade para dizê-lo.
Já te disse metade do quanto te amei e o quanto te amo? E tudo o que me preenchia o coração quando te via? Talvez tenha tentado, não sei se me ouviste, acho que nem o meu olhar percebeste, mas talvez, agora seja tarde para perceber.
"Tão perto mas tão longe"...
Nunca uma frase se adequou tão bem a nós, e ambos não sabemos bem porquê. Sabes que a minha cabeça é uma grande confusão, ando a tentar ter mais calma, e não tanta raiva, sei que nunca gostaste disso em mim, tarde de mais, parece que tal como um estudante, eu me esforço sempre no fim do ano. Se me conheces, deves estar a achar estranho, o facto de não estar a usar calão, e de não ter "asneirado" uma única vez... mas por esta altura já deves ter percebido que isto não é um texto normal, é um texto com saudades e de "porquês".
E porquê?
Porque esta é a sina do Homem original, fingir que está... digamos a "marimbar-se", quando no fundo de tudo, é algo que não acontece. O Homem tem o defeito de chegar sempre tarde a tudo, mesmo quando isso implica perder quem ama. Que raio de "timing"! Era isso que eu devia ter dito! Mas nem por sombras disse e nem tão pouco tentei. A luta agora é comigo mesmo, as coisas não saiem da nossa cabeça, afinal de contas, as nossas memórias não se apagam. E como tens coragem? Para me pedir para que não insista, de me dizer que tudo isto é um caminho sem retorno, e que supostamente devo fingir que um nós não existe, nem nunca mais existirá. Explica-me como se esquecem valsas a dois, rosas trocadas, aqueles chocolates que adoravas, e vestidos amarelos, quanta comoção e paixão me fizeste sentir... E para onde sigo agora? Para que caminho me destinaste? Os meus planos de vida estão suspensos e não sei onde os pôr, porque nesses planos nada era escrito no singular, tudo sempre no plural e na 1ª pessoa. "Nós."
A verdade é que agora, nós... só no estômago, quando oiço o teu nome, ou na cabeça quando penso em ti, ou até no coração, quando raramente te vejo. E que falha a minha, achar que agora que tudo vai mudar para mim, íamos finalmente, para aquela casa em que sonhamos viver, que íamos fazer aquela viagem que queríamos, e que tu também terias liberdade para tal como eu, tentar seguir o teu sonho. O meu sonho vai ter que esperar, agora que parece que os tais "ventos da mudança" me assopraram na espinha. E eu vou-me ausentar por tempos, mas escrevi isto só para falar de ti, de mim, e claro de um "nós" cada vez mais esbatido, mas sabes quem é que importa no meio disto tudo, e eu não preciso de dizê-lo.
Olha... diz-lhe que a amo, e agradece-lhe por me ter salvo, mas diz-lhe todos os dias. Diz-lhe que nenhum trono é pequeno demais para ela e que o maior sonho que ela pode ter é ser feliz.
As portas do meu peito continuarão a estar abertas para ti, e caso as portas se fechem, tenta as janelas, que por ti e para ti, eu deixo sempre uma aberta. A verdade é que não há pedidos de desculpas que me sirvam, e o tamanho imenso das minhas falhas, também não me permite pedir-te mais que isto. Sempre te disse, "Mais vale tarde que nunca" e sempre disse mal... devia ter-te dito "Mais vale muito tarde que nunca mais." e assim o nosso tempo não desapareceria.
Tu sabes onde estou, pelo menos por enquanto, eu vou estar por aqui a falar aos ouvidos das paredes sobre remorsos, e a ver se tão pouco carvão chega para te desenhar em todas as telas em que cabes, a ver se alguma das nossas prosas ganhou estatuto para virar poesia, e se eu próprio encontro algumas cores nem que as encontre na saudade. Será que já te disse que o nosso maior erro, fomos nós próprios? Bom, na maioria eu... Será isto não passa de um pesadelo rasca? Ou será que eu não estou numa cama de hospital inconsciente, a implorar para que me acordem, para te abraçar novamente? Eu não sei, talvez estou mesmo a delirar como tu dizes, e ainda bem, enquanto eu delirar contigo nos pensamentos, é porque ainda penso que existe um "nós".
E mesmo que quando eu partir, não saibas onde estou, eu estou perto, nem que seja em pensamento.
Enquanto eu cá estiver, vou declamar poesia dedicada a ti, em cima de um piano, ou a descarregar a minha raiva e a minha culpa, em algo que não te envolva. Sabes qual é a semelhança e a diferença entre um pincel e um lápis de carvão? A semelhança é que ambos são feitos maioritariamente de madeira. A diferença é que um pincel consegue apagar com tinta, tudo o que outrora foi desenhado na tela. Já um lápis de carvão, por mais que preencha a tela, pode ser facilmente apagado por qualquer tinta. Percebeste onde quero chegar?
Aquilo que se conclui, é que tudo na vida pode ser ultrapassado, ou nesse caso, "pintado por cima", mas o amor... esse não se apaga com uma facilidade similar à de respirar.
Ainda não disse um palavrão neste texto, aqui à uns tempos atrás ficarias orgulhosa... Mas olha, vou ter que colocar um nas próximas frases, mas "F*da-se como é possível? Como é possível ter as respostas à minha frente e mesmo assim falhar com quem amo? E são estas coisas que me levam para um estado de nervos de m*rda...", mas eu só queria aprender por mim mesmo. E perdi tempo de mais.
Tu sabes onde me encontrar, e se me procurares e não me encontrares... foi porque demoraste a ver que debaixo da tinta, alguém já te tinha dado o quadro perfeito a carvão...
E eu não quero ficar na história da tua vida por ser só o carvão, se posso dar-te todas as cores.

Amo-te mais do que me amo.

P.

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